quinta-feira, 26 de junho de 2014

TALVEZ, MEU BEM...

Talvez, meu bem
não seja possível
regar as rosas
nem libertar os pássaros
nem preservar os rios
nem alimentar as florestas.

Talvez não seja possível
nem cultivar o sonho
Mas é tarefa infindável
perpetuar o verso.

Talvez a única luz
seja a que vem
do reflexo
da tua alma.

Talvez por isso aquela canção
tão triste
seja a predileta
e a vida repleta
de solidão.

E eu não sou o que sou agora
eu sou
a que ficou para trás.

Ana Roen


sábado, 21 de junho de 2014

CETICISMO

Pare, meu coração, eu te garanto
Descansar é bem melhor que um promesa
Que nunca chegará ao seu intento
Que nasceu no fremir de uma conversa.

Ai, meu coração, já sabes bem
Não há com o que te satisfaças
E nunca saberás bem o que tens
O que te bem sucede, onde fracassas.

Vai vivendo os dias num compasso
Numa estrada, numa trilha, numa fresta
Na medida exata dos teus passos
Vai contando assim o que te resta.

Ana Roen

sábado, 24 de agosto de 2013

A NOITE

A noite vem apagando os céus
E a tarde perdida vaga em torno
Vestindo seu longo burel
Envolve o dia em fúnebres contornos.

E uma a uma com seus longos dedos
Vai pendurando nos espaços vazios
Suas estrelas refulgentes e o medo
Entre as criaturas o vento frio.

Já é noite altiva e austera
Em reverência o azul recua
Pra disfarçar sua face severa
Como um sorriso nos dá a lua.
 

Ana Roen

ADEUS, MEUS SONHOS

Cambaleando do intrépido cansaço
Uma voz louca em mim grita
E à essa voz abrem-se todas as criptas
E há um túmulo em todos os espaços.

A ilusão repousa já funesta
Não há um só gesto, uma única ação
Nada me retém ou faz menção
Só o fúnebre silêncio aqui se manifesta.

Compreendo a hora final e derradeira
Vendo a luz, que avista o moribundo
A única luz me que me haveria nesse mundo
E que procurei a vida inteira.

Adeus, meus sonhos e minha vida
Deixo rolar uma única lágrima, permito
Adeus, meus sonhos, não mais hesito
É a hora triste da partida.

Ana Roen

INDEFINIDA

Não sou a ilusão que tu sonhavas
Nem o esboço do sonho que querias
Fui perdendo as formas enquanto tu me desenhavas,
E nesse vago pouco a pouco me esquecias.

Fiquei assim indefinida e incompleta

Fiquei sem cor, esvaecida
Como a imagem que retrata uma época
De um tempo perdido nessa vida.

E hoje não me amo nem me amas
E vou me apagando com o tempo
O destino tem lá as suas tramas...
Não sou mais eu, nem as muitas que me invento.
 

Ana Roen

TÉDIO

Tem dias que a gente sente
Uma coisa que não deve
A falta até do que não serve
Do que não presta pra nada
Uma colcha velha já rasgada
Uma rua de terra enlameada
E até de uma dor de dente.

Ana Roen

A NOITE CONSENTE

A noite seu perfume exala
E meu pensamento inquieto
Passeia do chão ao teto
Por sobre as paredes da sala.

A noite sabe e não diz
A noite cala e consente
Porque a gente se sente
Na noite assim infeliz.

Ana Roen


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

OS MEUS CANSAÇOS

Os meus cansaços seculares
Atravessam gerações
Rompem desertos e mares
Vencem as estações.

Cambaleia pelo ar
Escala paredões
E se põe no limiar
Das sádicas ilusões.

Rompe barreiras sem fim
E a tudo consome
Cresce dentro de mim
Alimentando-se da própria fome.
 

Ana Roen

POEMINHA AO LONGO DO DIA

O cinza dá o tom do dia
As nuvens choram espessas

Os céus roubam as horas
A tarde empalidece

Caminha a noite às pressas
A noite chega. A noite desce.


Ana Roen


IMPROVÁVEL

A esperança
Serpenteia
E brinca de se esconder
Atrás das cortinas feias
Descoradas pelo tempo
Lá fora
Ao vento
Baila um sonho possível
Mas irremediavelmente
Improvável
Agora
Que desse lado do planeta
A noite escura
E preta
É uma sombra
Emoliente
E insaciável.
 

Ana Roen

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

EM VÃO

Bem longe ou perto tudo é deserto
Apenas o vento vem dar-me bom dia
Seu rumo eu não sei, seu caminho é incerto
Passa por mim mas não é companhia.

O céu é distante não posso alcançar
O sol já me queima a face, me agita
As nuvens no alto não podem parar
E seguem alheias sua estrada infinita.

As ondas na praia em seu ritual
Vem e voltam, pertencem ao mar
E nelas não vejo amigo ideal
As ondas se vão, não podem ficar.

As flores que eu vi murcharam, caíram
As flores perfumam mas tem vida breve
As flores são belas mas nunca me viram
Se não eu pedia, pra sempre me leve.

Ana Roen


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

PARA SEMPRE EM MIM

Te guardo em cada verso que escrevo
Mesmo naqueles que não falam de ti.
Te guardo no silêncio das horas
Que converte dias em noites
E noites em dias diluídos.
Te guardo no frio da alma,...
Na tristeza sem fim.
No desejo que aflora
Doce e quente,
Na lágrima que cai
Silenciosamente,
No riso introvertido.
E assim te guardarei
Pela vida afora
E assim te guardarei
Para sempre
Dentro de mim.

Ana Roen


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O BEIJO TEU

Para ti em minha boca guardei meu doce beijo
Para ti, no dia em que te encontrasse
Ainda que o tempo dissipasse...
Toda esperança e até o carnal desejo.

Guardei esse beijo com cuidado
E desse beijo ninguém jamais provou
Cuidei para fosse somente teu, ou
Jamais nessa vida teria alguém beijado.

E hoje que te encontro sei que valeu
Tanta espera pela vida afora
Pois sempre haverá esse beijo para quem se adora
E guardastes um beijo também que era só meu.

Ana Roen



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

NOS TEUS BRAÇOS

Ando dormindo nos teus braços
E dos teus olhos roubei a luz divina
Para dar vida às minhas retinas
E aniquilar os meus cansaços.

Percebes quando venho, me achego...?
Me aninho no teu dorso,
Enlaço teu pescoço
E te roubo aconchego?

Percebes? Sentes? Meu ar tristonho...
Deixa teus braços abertos
Que eu estou sempre perto
Pra te roubar de ti, mas te deixo o sonho.

Ana Roen





sexta-feira, 13 de julho de 2012

DESCANSE, AMADO...

 Descanse, amado
Os meus braços... é o teu aconchego
Eu velo teu sono pesado
Velo teu desassossego.

Escuta o vento apressado
Quando te toca, avisa
Que sou eu ao teu lado
Eu sou a brisa.

Se o sol te queima, é chama
Não te exasperas
Sou eu em tua cama
Sou eu, que com ardor te espera.

Não ligue, amado
Se vir a noite mais densa
Eu abro um céu estrelado
E acordo a lua imensa.

Ana Roen

quinta-feira, 10 de maio de 2012

POEMA CONTÍNUO - PARTE X (O poema sem fim)

Há em mim um sentimento inexplicável
Um medo, um temor indescritível
À luz do sol me faço invisível
E à noite, uma sombra indecifrável.

Contra o que tenho lutado e desde quando?
Me ensanguento nessa luta imaginária
Erguendo a minha espada solitária
À um exército de fantasmas sem comando.

Às vezes fujo, apressando os meus pés
Temo muito o embate principal
Pois, a minha armadura é de cristal
E os gládios são tão fortes e cruéis.

Ana Roen

  

sexta-feira, 6 de abril de 2012

POEMA CONTÍNUO PARTE IX ( O poema sem fim)

Não há nada. Nada sou e nada tenho.
Meu coração é um cristal sem brilho
Uma canção sem estribilho
Uma moldura sem desenho.


A minha canção é a mesma cantiga
Os meus versos são os mesmos
A andar por aí a ermo
Por sobre as coisas antigas.


Eu não terei história
Na vida. Viverei à margem
Perseguindo uma imagem 
Que só existe em minha memória.


Ah, meus versos não tem sentido.
E às vezes me causam vergonha
Por me dizerem a coisa medonha
Antes me tivessem mentido.


Ana Roen
 

POEMA CONTÍNUO - PARTE VIII (O poema sem fim)

Adentro o mundo dos sonhos e todos os meus sonhos mato
Na ânsia incoercível de verter
Em sangue o que está a me doer
Faço uso de todos os aparatos.

Um longo processo se desencadeia
Sob sangue e veia a ferida exposta
De quem do mais amargo bebe e gosta
No lirismo vital da poesia.

Não importa se belos, feios ou exóticos
Sonetos, quadras, soltos, livres...
À luz dos versos cada sonho meu revive
E se não traz a cura, imprime o diagnóstico.

Ana Roen

terça-feira, 27 de março de 2012

REDENÇÃO

Tenho a face cor do vento
Em silêncio sempre passo
Mas às vezes me apresento
Com estrondo estardalhaço.

Abro os braços nada peço
Vou a fundo e me acho
Na vereda dos meus versos
Alegria acende o facho.

Nesse ponto se ilumina
E me mostra sempre avante
A viagem não termina
Sempre posso ir adiante.

Toca flores pensamento
Nessa estrada há fulgores
Com os olhos sempre invento
Um buquê de nova cores.

Mais à frente há um rio
Pouco mais que uma vertente
Onde bebo em desafio
E me banho no poente.

Onde o sol leva meu tédio
E me traz nessa corrente
Redenção o meu presente
Poesia o meu remédio.

Ana Roen

quarta-feira, 21 de março de 2012

POETRIX - A FLOR DO SONHO

Nessa manhã orvalhada
Abriu-se a flor do sonho
Dentro continha o amor.
 
Ana Roen
                  

terça-feira, 20 de março de 2012

A LIRA DOS TEUS SONHOS

Aquela que é teu céu aqui na Terra
A lira virginal dos teus amores
Que em versos no teu peito tu encerras...
Aquela, pode ser, já te esqueceu.

Mas há alguém que não tem a pretensão de ser teu céu
Que traz o lamento em seu canto
E sofre por amor aos teus encantos,
Esse alguém sou eu.

Ana Roen

quinta-feira, 8 de março de 2012

ENGANO

Fui mergulhar em teus olhos lhanos
Mas o amor cercou o destino
E o que era pra ser só um sonho profano
Pouco a pouco tornou-se divino.

Um devaneio da alma poeta
Viu nos teus olhos águas tranquilas
Mas veio a noite escura e tormenta
E o teu mar secou em areia e argila.

Quis voltar, porém, já não pude
Me perdi nesse mar dos teus olhos insanos
E hoje os ventos que sopram são rudes
Dos polos mais frios dos meus desenganos.

Ana Roen

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

POEMA CONTÍNUO – PARTE VII (O poema sem fim)

As horas passam a tarde desce
Numa lentidão que não prospera
E eu fico como quem espera
O que a imaturidade do meu desejo desconhece.

Um silêncio fúnebre envolve a casa
O sol, o único visitante
Com sua luz alta flamejante
Qual um olho nitidamente em brasa.

Nenhum pensamento se sustenta
Tento sacudir os meus neurônios
Como um feixe em curto de iônios
Nessa impassibilidade que suplanta.

Ah, quantos pensamentos desconexos me nega a fala
Há em mim um espanto descomunal
Vem-me até a ideia do sobrenatural
Estou só. Ergo-me e caminho pela sala.

Em meio ao meu corpo também passeiam as dores
Um último resquício que há de vida
Nessa estranha sensibilidade resumida
Descrevo esse dia como um dos piores.

Ana Roen

domingo, 29 de janeiro de 2012

POEMA CONTÍNUO – PARTE VI (O poema sem fim)

Domingo. Tudo no silêncio envolvido
Da tarde que misteriosa dorme
Apenas meu pensamento inerme
Na vigília por todos os sentidos.

De repente... cega-me a vista o inimigo astuto
E me toma de assalto a consciência
Com o caráter vital das emergências
Em vão procuro, inutilmente luto.

Não posso ver a sua horrenda face...
E tateando as vestes do carrasco
Seu hálito provoca um novo, estranho asco
E são novos para mim todos os disfarces.

Investe com tamanha força bruta
Incessantes golpes pelo ar desfere
E enfim a impiedosa e invisível mão me fere
E caio inerte para a luta.

Ana Roen


sábado, 28 de janeiro de 2012

POEMA CONTÍNUO – PARTE V (O poema sem fim)

Sinto um grande prazer
Em escrever poemas feios
E na ânsia busco, permeio
As palavras mais duras de se ler.

E não há em nenhum idioma
Nem mesmo na complexa lusa
Um único vocábulo que traduza
Todo este anseio que me toma.

E nem há criatura viva,
No céu ou em abismos infernais
Que possa redigir meus ais
Com precisão exata e fiel descritiva.

E carrego para todo lado
Onde quer que eu vá, comigo
Como um infeliz mendigo
Este inútil e pesado fardo.

Não sei o que me aguarda
Já não vejo sentido nas linhas
O verso mal nasce, definha
Qualquer dia  não haverá mais nada.

Ana Roen


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

INSTÁVEL

Sempre escrevo com desvelo
Em linhas entrelaçadas
Se quiser puxar novelo
Vem o fio da meada.

No meu peito sentimento
Fez seu ninho fez morada
Numa noite de tormento
Dessas longas madrugadas.

Muito de vez em quando
Me visita a alegria
E se vai. Não porque mando
É que a alma é arredia.

Já cansei querer saber
Quando é noite quando é dia
Coração quem vai dizer
Pois eu vivo à revelia.

Tenho um pouco de loucura
E a mente muito instável
Mas eu sigo na procura
Sempre perco a própria imagem.

Muitas vezes até digo
Que não quero mais viver
Mas conseguem ou consigo
Esse quadro reverter.

Tem dias que acredito
A vida pode ser boa
E me vejo nos escritos
Do versar de outra pessoa.

E embora dividida
Desisti de entender
Pois não sou eu, é a vida
Que se põe a me escrever.

Ana Roen


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A NOITE

E a noite foi um negrume
Sem farol e sem lume
E foi mais noite que o breu.

E a noite velou quieta
Mas foi amiga e poeta
E um poema me deu.

E ficou comigo acordada
Até a primeira rajada
De sol e desapareceu.


Ana Roen

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

AMA

Ama com amor que dilacera
Ama com a fúria de outras feras
 

Ama com amor que não se devota
E ama com a alma de poeta.

Ama o amor que já se foi
Com todo amor que ainda resta.

Ana Roen

domingo, 22 de janeiro de 2012

ALI (MENTE) O SONHO SEMPRE

Vai e ande onde queres
Quem tem pressa tem que ir
Dê as voltas que quiseres
Mas na volta para aqui

Um poema é quase nada
Mas carrega mais de mim
De uma mente ocupada
De uma história quase fim

Entre um verso e outro abraço
O que a vida não processa
Coração me dita eu faço
O cansaço vira pressa

O meu subconsciente
Minha parte mais sombria
Distorcida e tão presente
Chama a isso poesia

Se quiseres me entender
Se desliga desse mundo
Feche os olhos pra me ver
Na verdade onde eu me escondo

Isso tudo é meu apoio
Quase nada ainda resta
Não sou trigo eu sou joio
Da colheita sou a festa

O meu choro é de verdade
O meu riso vai saber
Eu sou duas sou metade
E as duas tem que ser

Na loucura tu me encontras
Na tristeza sou carente
Na desgraça estou pronta
Eu renasço no poente

Fecho os olhos ver me apresso
Tal qual fosse do meu lado
Os teus olhos nos meus versos
Tu me lendo aí sentado

Ana Roen

sábado, 21 de janeiro de 2012

A COR DO DISFARCE

Tenho a alma violeta
E mais roxa de saudade
Que sob a luz do planeta
É lilás na claridade.

É camaleoa
A minh'alma dolorida
Quando entre as sombras voa
Toma cor indefinida.

Mas o seu grande disfarce
É ficar bem parecida
Com a cor da minha face
Já sem tom, descolorida.

O seu grande disfarce
É ficar bem nivelada
Com a cor da minha face
Invisível, cor de nada.

Ana Roen


TROVAS

Minha vida não é uma obra
Mas constantemente me cobra
Eu vou vivendo das sobras
Manobra após manobra

Me pondo sempre à prova
Aprendo somente com sovas
Mas sou dura feito andirova
Vem a esperança e renova

Que esperança uma ova
Enquanto caminho pra cova
Vou fazendo minhas trovas
À ver se alguém aprova.

Ana Roen


sábado, 14 de janeiro de 2012

MEU CORAÇÃO

Meu coração nas esferas
Desse mundo louco, irado
Debate-se entre feras
Em fuga, desesperado.

Carrossel de dissabores
Girândola de infelicidades
Retumbam os tambores
Nos acordes da adversidade.

Às vezes para tudo
E fica o grande vazio
Pelas escarpas do mundo
Silencioso escuro e frio.

Às vezes insiste, um anjo
Tocar sua canção para mim
Enlouquecem seus arranjos
Desafino seu flautim.

Qualquer cantiga é lamento
Qualquer história é terror
Punge o sentimento
O que mais existe? A dor.

Ana Roen

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

CANÇÃO DO EXISTIR

Para além de mim que existo
Além desse existir mais nada
De sonho apenas me visto
E me deixo ser levada.
 
Ana Roen

POEMA CONTÍNUO - PARTE IV (O poema sem fim)

 De que matéria fui feita eu
Que contraria a tudo que é humano
Que sentimento tão profano
Uniu-me a consciência de um ateu?

Sem Planos, sem objetivos
Passo os dias nessa vã procura
De uma doença para minha cura
Alimentando pensamentos corrosivos.

Matei meus sonhos mais queridos
E os trago a mim acorrentados
Pra tornar o fardo mais  pesado
Arrastando um coração já combalido.

Ana Roen

POEMA CONTÍNUO – PARTE III (O poema sem fim)

Afivelaram-se a mim as ilusões perdidas
No caminho que sigo hoje, as trago
Com um suspeito sorriso amargo
Que não podem disfarçar minha ferida.

E esta escuridão e chuva fria
E toda essa angústia que me toma
De todos os males, os sintomas
Com esta luz, com este sol não concilia.

E procuro da minh'alma o meu deserto
E fujo para a minha solidão
De imensidão a imensidão
Aos poucos, só aos poucos me liberto.

Então, passa por mim em ondas finas
Um choque, um tremor de ansiedade
E é como um vício, o fugir à realidade
Qual teor entorpecente das morfinas.

Ana Roen

POEMA CONTÍNUO - PARTE II (O poema sem fim)

Sombrios são meus passos nesse mundo
E meu coração hoje está doente
Dessa inflamada dor latente
Que me atira a pélagos profundos.

Constantemente esse pavor me cerca
Por todos os lados se me vem cobrindo
E o chão aos poucos se abrindo
Para que pra sempre nesse horror me perca.

Tudo o que eu digo se embaralha
Ou vem de maneira meio torta
Um verso em mil estrofes me recorta
Como o fio incisivo das navalhas.

E passa a um centímetro de minhas veias
Bombeia o coração num alvoroço
O que antes era sentimento insosso
De grande excitação se incendeia.

Meu coração enfim se presta
A um sarcófago, uma tumba
Para que cada sonho meu sucumba
E repouse em mim cada ilusão funesta.

Ana Roen


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

PERDÃO

Por tantas coisas que falo
Pela excomunhão
E até pelo que calo
Meu Deus, perdão.

Deu-me a alma sombria
E ando pela escuridão
Na minha triste via
E a cruz no coração.

Digo, em Ti não creio
E talvez não creia, a pensar
Com enorme receio
Se não estás a escutar.

São vastos os altos céus
E a linha do infinito
Que encobriu os densos véus
Desses meus olhos aflitos.

Ana Roen


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

POEMA CONTÍNUO - PARTE I (O poema sem fim)

Hoje vivo de inverno a inverno
Cessaram as outras estações do ano
Hoje eu vivo só de desengano
E do frio que transpassa alma, eterno.

Hoje não tenho mais necessidade
De fingir pra alguém que sou alguém
Vivo apenas do que minh'alma tem:
Tristeza, dor e alguma insanidade.

As pessoas dizem: -- Pensa em Deus que passa.
Finjo que creio e às vezes rio
Mas por dentro há somente o vazio
E se me ponho a rir, é da alheia desgraça.

Não por maldade mas por achar
Tão idiota e inútil os medos
Que as pessoas tem  que o infortúnio cedo
Possa por acaso as alcançar.

Com essa conversa eu já me amolo
Dixei as rezas e carolices à parte
Prefiro referenciar-me na arte
Que ao menos me traz algum consolo.

Tantas tentativas já baldadas
De em vão tentar agradar a todos
Indo eu também pelo mesmo engodo
Seguir exemplos que não dão em nada.

Mas buscar explicação também não serve
São só bobagens de encher as horas
Quando vem a dor o que se faz? -- Chora!
Pois não é profícuo exercitar a verve.

Caminham comigo lado a lado
De modo inseparável as coisas feias
Com os elos imbatíveis das cadeias
Em meio a esse horror desesperado.

E meu coração que é tão feio de dar medo
Mesmo assim abriga ainda
Dividindo ao meio essa ferida
Um amor que trago em segredo.

Mas vou aprendendo ainda que aos tropeços
Deixar pra trás o resquício da alegria
Que de nada mais me serviria
Como os restos mortais dos meus apreços.

Mesmo agora acima o plenilúnio
Não impede a noite ser sombria
Pois a escuridão constante desafia
Com o braço negro do infortúnio.

Eu sou a noite mais densa, a escuridão
O sol de inverno ao meio dia
Das ladainhas e rezas a latomia
E todas as palavras de maldição.

Trago a tristeza na alma enredada
Envolvida num abraço merencório
E um frio beijo marmóreo
Das longas insones madrugadas.

Sinto um mal-estar constantemente
E sobe-me à boca um certo nojo
Como se vivesse do despojo
Dos restos de um corpo já doente.

Ana Roen

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

EU TE AMO

Eu te amo com a imensidão do mar
Eu te amo com a vastidão do céu imenso
E te amo com dor de sentimento
E te amo como só eu sei te amar.

E passa o dia e a noite vem
E eu continuo sem
Teus olhos com que me veja
E sem saber onde esteja
A esperança de te encontrar.

Ana Roen

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

INVERNO NO DOLOROSO VERÃO

E hoje não há sol ao meio dia
O dia é pálido o sol se esconde
Onde a luz passava era eu que me escondia
E hoje há sombra por onde quer que eu ande.

Existe em mim um largo sentimento
Em tudo que toco com meu coração
Por tudo que eu sinto ou invento
Nessa doce e calma solidão.

Por vezes sinto passar o vento
Seja ele mesmo ou pressentimento
E mesmo esse vento me é bem vindo.

E há há nuvens grossas no firmamento
Do mais escuro dos tons cinzentos
E estou livre. O dia é lindo!

Ana Roen


INFERNO INTERIOR

Meus amigos poetas,
Eu não me iludo.
Meus poemas saem da minha boca mudos
Em disparada norteia a  seta
Para o alto mas não encontram os céus.

E eu desgrenho o meu ser interno
Subo aos montes e desejo o inferno
Mas não há castigo que absolva o réu.

Eu faço versos como quem apanha
Invisto contra minhas próprias entranhas
De sangue e pele tenho coberta as unhas
Que são o meu próprio arpéu.

Vago no mundo como coisa perdida
Às vezes orgulho-me das próprias feridas
Que as trago como um troféu.

Por dentro alguma coisa queima
E por 24 horas teima
Em arder como um fogaréu.

Às vezes consigo lançar meus gritos
Que correm inteiro pelo infinito
E acordo os deuses nesse escarcéu.

Mas os deuses a mim me temem
Não sabem qual tão horrível sêmem
Fez gerar este ser cruel.

E morro dentro de minhas próprias trevas
Em meus venenos, minhas próprias ervas
Meu ser inteiro é um mausoléu.


Ana Roen

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ÓDIO

Deixei-me levar solitária
À enterrar os meus sonhos
Sob a pedra mortuária
Deixei os meus dias risonhos.

Silenciei meu pranto, meus medos
Aceitei meu destino só
Pra viver esse degredo
Cobrí-me de chão e de pó.

E eu que fui feita de entrega
Hoje sou só raiva cega
Sob a insígnea bandeira do Não!

E hoje só tenho ódio
E uma pedra de sódio
No lugar do coração.

Ana Roen


CRUEL

Oh, que tempo cruel!
Está o dia horrendo
Há nuvens negras no céu
E faz um frio tremendo.

Oh, que tempo medonho
Cobre o dia este véu
Há nuvens no céu tristonho
E um frio cortante cruel!

Ana Roen


sábado, 26 de novembro de 2011

SOLITUDE E SOLIDÃO

Sentada no chão me envolvo
Meus braços a mim me envolvem
Sair de mim resolvo
Saídas assim resolvem.

Parte de mim reparte-me
Parte de mim dissolvo
Volto outra vez emendar-me
Meus braços me envolvem de novo.

Se saio volto e me envolvo.

Ana Roen


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

NAU (FRÁGIO) (L)

Foi-me a esperança, que desfecho!
Foi tudo de minhas mãos fugindo
Fico aqui parada, não me mecho
Levem-me tudo, também já estou indo.
 

Levem meu destino, minha nau errante
Levem bem longe ao meio do mar
Que se perca pra sempre em uma onda gigante
Que queira, espero, assim o tragar.

Levem-me a sorte, que foi o meu mal
Levem também ao meio do mar
Que siga o destino de tantas naus
Que nunca mais ninguém pode encontrar.

Levem meu corpo e o deixem só
Levem pra longe... ao meio do mar
Uma pedra, uma corda, um grande nó,
E pronto. Já vou nessas águas morar.

Ana Roen


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

MINHA POÉTICA

A minha poesia
É sincera e intimista
Eu acordo e todo dia
Passo a alma em revista.

E percorro cada canto
De sombrio interior
Sem surpresa nem espanto
Só existe lá a dor.

Vou sorvendo meus anseios
Vou bebendo em taça cheia
Sentimento, devaneios
Enquanto a vida passa alheia.

E sentindo o lânguido abraço
Da tristeza, em queda livre
Vou caindo pelo espaço
Sem ter onde me equilibre.

Daí vem essa poética
Como coisa meio torta
Sem seguir nenhuma estética
Meio viva, meio morta.

Ana Roen